Reticentes inquietações

20 janeiro 2009

 

Madrugada de 14 para 15 de janeiro de 2009, 02: 41 da manhã. Já tinha desligado meu computador, dado mais um dia por encerrado e resolvido que era hora de ir pra cama e voltar à leitura do livro que estou lendo, uma biografia de Johannes Kepler, o astrofísico alemão que, entre outras coisas, estudou o movimento dos corpos celestes e provou as teorias de Copérnico de que a Terra não é o centro do universo. Retomando a leitura a partir da página que acreditava ter sido a última lida na noite anterior (não, eu não estou usando marcador), resolvi recomeçar a partir de um ponto que sabia que já tinha lido, mas lido com sono, sem registrar o texto com a devida atenção. Tenho esse hábito (talvez muita gente o tenha) de sempre recomeçar as leituras de um dia para o outro relendo um pedaço do que já li para, assim, fazer o devido engate das ideias. Foi por isso que recomecei dali, meio que arbitrariamente, sabendo que, na medida em que fosse relendo, engancharia a leitura de ontem com a de hoje, tal qual sempre fiz. Para meu estupor, justamente no parágrafo em que recomecei, havia beleza e força intensas que a mim foram como um sopro, ou uma pancada.

 

Sem me alongar muito na contextualização, preferindo deixar que as palavras falem por si mesmas, acho pertinente apenas citar que o trecho em questão faz parte de um capítulo que fala da formação intelectual de Kepler e do quanto seus estudos e sua ciência foram marcados pela profunda espiritualidade – cristianismo luterano, registre-se – que sempre norteou sua vida de genial cientista. Eis a tal passagem do livro:

 

“(…) a ordem do mundo era uma sombra da mente de Deus. A mente humana vibrava com essa ordem, a sentia e reagia a ela. Na linguagem escolástica, a mente era da mesma natureza da ordem do mundo – eram feitas uma para outra e poderiam estar sintonizadas uma com a outra como rádios. A filosofia era essencial, porque treinava a mente para essa ordem divina, e a astronomia era central para a filosofia, porque a ordem mais perfeita, a única harmonia verdadeira, estava no som das esferas celestiais. Essas esferas, essa ordem, tinham sido estabelecidas por Deus para conduzir os seres humanos à perfeição. Assim como as esferas celestiais se movem em círculos perfeitos, deslizando pelo céu noturno, imponentes, sem pressa, nobres, como reis em procissão, do mesmo modo a mente treinada se move em padrões racionais, de argumento em argumento, da verdade para uma verdade maior, até mesmo a verdade maior de todas, a verdade de Deus. (…) os céus contêm uma luz celestial que a mente ordenada contempla e, ao fazer isso, sonda os lugares secretos de Deus, revelando até mesmo o Criador à mente observadora, pois somente por desígnio, um desígnio divino, poderia tamanha ordem acontecer. E esse desígnio não só é maravilhoso por si mesmo, mas também útil aos seres humanos, pois a ordem dos céus é também uma lição moral. A sua perfeição, regularidade e harmonia ensinam a lei divina da retidão à alma humana, decaída e cercada pelo caos. Nada nos céus acontecia por acaso (…). Era a vontade de Deus que os seres humanos conhecessem o divino, e o estudo da perfeição do céu era um dos meios de se chegar a esse conhecimento, um conhecimento e uma verdade que libertarão o indivíduo. Aqueles que acreditam que os céus existem só por acaso travam uma guerra contra a alma humana”.

 

De início, pensei que seria interessante levar o livro numa próxima reunião com os amigos para poder ler essas poucas linhas em voz alta, imaginando que isso tudo suscitaria um papo interessantíssimo para temperar nossa noite. Praticar esta ou aquela religião (ou alguma religião, até) não importa para mim aqui. Tanto prova que tenho sentido, há uns poucos anos, uma vocação budista que descobri naturalmente, a partir das leituras sobre o tema que já fiz, inicialmente como curioso. Durante várias dessas oportunidades, inclusive, senti que os trechos que lia estavam sendo escritos especificamente para mim, tamanha a identificação e a sensação de, sem saber, já pertencer àquela coisa toda. Mas como me sentir budista, querer me tornar seguidor de uma religião ou filosofia de vida que não cultua a figura de um Deus, e ficar tão tocado com uma passagem que tanto cita a relação do homem com o divino? Não sei ao certo, mas fui arrebatado pela beleza e poesia que julgo haver nessa maneira de interpretar os céus. Fiquei refletindo sobre essa coisa de razão, fé e sentimento, sobre o que leva um homem a perseguir tão obstinadamente alguma coisa, sobre quão grandes e a quais distâncias podem nos levar nossos sentimentos, e comecei a “viajar” tanto que, por alguma razão, senti as coisas meio que se comunicando de forma quase mágica. E isso foi quase na hora de dormir em um dia que já tinha sido marcado por outra coisa que, até então, tinha sido curiosa, e que se tornou, digamos, estranha.

 

Mais cedo, durante o trabalho da tarde, eu arrumava mais uma vez a prateleira dos livros, ocasião em que sempre acabo encontrando algum título que, por alguma razão qualquer, atiça minha curiosidade. A coisa toda se repete diariamente: me deparo com um livro qualquer que por alguma razão me provoca, admiro sua capa, leio sua contra-capa, dela parto para a orelha, às vezes cheiro suas páginas novas, sinto sua textura, e coloco o livro de volta no mesmo lugar, guardando aquelas informações nos arquivos do cérebro para uma futura consulta, talvez mais detida e aprofundada. Todo dia isso ocorre umas tantas vezes. Hoje quem me “chamou” foi O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, autor cujo nome conheço faz muito tempo, mas que, infelizmente, numa das muitas lacunas literárias que todos nós invariavelmente temos, eu nunca li. Para minha surpresa, o livro fala justamente da busca de um indivíduo por sua individualidade “escondida”. Subitamente fascinado e devidamente inquietado pelo tal lobo da estepe, corri para o computador para pesquisar mais não só sobre o livro, mas também sobre o próprio Hesse, e descobri que o autor não só se deteve muito nessa temática das questões interiores (antes de O Lobo da Estepe, vou começar com Demian), como também foi um estudioso das filosofias orientais, incluindo o budismo (e, entre os dois, vou ler Sidarta). Como se isso já não fosse suficiente, o cara ainda estudou em Maulbronn, o mesmo seminário em que, três séculos antes, havia estudado quem? Kepler!

 

Quem me conhece sabe que, entre outras coisas, sou tímido, reservado, inseguro, observador, muito crítico, um tanto angustiado, sonhador e bastante ansioso. O nome que escolhi para esse blog, aliás, advém exatamente dessas características. Do que muita gente, mesmo os que me conhecem, não sabe é que, no incessante fervilhar da minha mente reticente e inquieta, sou muito apegado a simbologias, à busca de conexões cósmicas e do sentido das coisas, a sempre querer enxergar mais do que coincidências nos acontecimentos, e a avidamente querer entender mais sobre as engrenagens que compõem a apaixonante mistura de complexidade e simplicidade que me parece constituir o movimento da vida. Tento fazer tudo isso respeitando o máximo possível as demais faces da minha maneira de ser, o que nem sempre é fácil.

 

Mas se Kepler norteou suas observações e seu fazer científico na profunda fé que tinha, eu, em meu momento atual, tenho tentado nortear meus pensamentos e minhas ações a partir do desejo de “sentir intensamente” e validar meus sentimentos, sejam eles quais forem, sem abafá-los ou sonegá-los, e da busca pela sabedoria e pela serenidade, pelo equilíbrio constante entre mente e corpo. De novo, não é nada fácil. Pode até parecer que as duas coisas são um tanto antagônicas, meio que um contraponto entre razão e sentimento em estado bruto. Só sei que sou regido pelo que sinto, mas poucas vezes consegui abrir mão da tal racionalidade em prol dos sentimentos. Boa parte de tudo o que vivi e das decisões que tomei na vida é explicada por essa dualidade aparentemente condenada a eterno conflito. Mas foi só nessa eterna via de mão dupla entre a cabeça e o coração que soube viver até hoje. Então, penso que se conseguir harmonizar essas duas coisas e fazê-las dialogar mais, vou aumentar minhas chances de viver uma existência mais plena, autêntica e verdadeira, o que, acredito, tornará todas outras coisas da vida mais fáceis.

 

Assim sendo, tudo o que tenho feito é nesse sentido: planos profissionais, relações pessoais, leituras, atividades físicas, yoga, etc. E é exatamente aqui que entra esse blog… Há tempos venho nutrindo o desejo de fazer algo do tipo, sem saber exatamente que cara ou conteúdo daria para ele e mesmo sem saber se, no corre-corre dos nossos tempos, seria capaz de levá-lo em frente. Sabia apenas que existia a vontade de um dia experimentar. Mas, na minha racionalidade, faltava um propósito mais claro que fizesse a aventura valer a pena. Algo como “vou fazer porque eu quero e foda-se o que eu vou colocar nele” até hoje nunca me pareceu um argumento suficientemente forte.

 

Mas eis que chegou hoje, dia em que, mesmo sem nunca tê-lo lido, Hermann Hesse virou um dos meus autores de cabeceira, e este dia veio seguido da noite em que retomei minha leitura sobre Kepler justamente no ponto em que retomei. Agora estou aqui, já às 03:59, escrevendo este pedaço de reflexão que começa a história deste blog. Dia, noite, céu devidamente presente na simbologia, processo constante de busca das minhas verdades, enfim, os astros e o mundo parecem estar agindo em comunhão sobre mim… Não sei, mas me recuso a acreditar que isso tudo não tem nada a ver.

 

No que isso aqui vai dar, não sei. Se Deus existe ou não, sei menos ainda. Mas sei que este blog pode ser mais uma ferramenta a me ajudar nesta busca por me conectar com meus sentimentos, com o “eu verdadeiro”. E também sei que adoro olhar as estrelas…

 

Bem-vindos a mim!

 

 

 

11 Respostas para “Reticentes inquietações”

  1. Taís Brasil disse

    Primo! Muito bonita sua iniciativa! Faça desse espaço seu lugar de reflexão e troca! Adorei! Em relação ao H. Hesse (pelo que pude perceber…) sugiro Sidarta pra vc, nesse momento.
    Um beijo enorme
    TB

    • Rafael MR disse

      Obrigado, prima! Espero que eu consiga refletir e trocar com assiduidade. Venha sempre, do mesmo jeito que tenho ido sempre até você. Assim podemos nos sentir mais próximos um do outro. Beijo enorme pra ti também!

  2. Tathy Fleury disse

    Rafa, o texto é você. Do início ao fim. Como se tivesses engatado a quinta marcha em uma bela conversa de fim de semana regada à vinho. Parabéns pela coragem! Vida longa às reticentes inquietações. Afinal, elas te definem!

    • Rafael MR disse

      Gaija, prazer poder compartilhá-las contigo há tanto tempo. Prazer, também, poder fazer deste espaço uma extensão dessa troca. Espero que essas reticentes inquietações perdurem e tragam enriquecimento. Beijos!

  3. Renata Freitas disse

    Rafa, te confesso que preciso de mais calma. Tô no meio do expediente e, com certeza, uma lida rápida nesse teu texto, não me satisfaz.
    Gosto de inquietações.

    Beijo grande!

    • Rafael MR disse

      Fique à vontade, Renatinha… Agora que já sabes onde encontrá-las, podes fazer isso quando bem entenderes. Beijo grande pra ti também!

  4. mari disse

    Reticentes inquietacoes! Que titulo perturbado!
    Belém parece bem próximo de repente, vou passando por ai!
    beijinhos
    Mari

    • Rafael MR disse

      Perturbado, é?!?! Espero que pelo menos seja uma perturbação para o bem… E outra: pega logo o avião e vem pra cá mesmo. Beijos pra ti!

  5. Luana disse

    Rafa… achei o blog!
    Te descreveste sabiamente. Eu te identificaria na horinha mesmo se não soubesse que esse pedacinho virtual fosse teu.
    Parabéns pela iniciativa!
    Boa sorte na sua descoberta e encontro com teu verdadeiro eu.
    Beijos meus…

    • Rafael MR disse

      Obrigadinho! Ele nada mais é do que um exercício, um laboratório, mais uma ferramenta que encontrei pra me ajudar nessa jornada. Beijinhos!

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